- Garçom.
Passa uma jovem e Marcelo olha (câmera subjetiva na garota passando).
Chega outro velho, Antônio, e comenta com o Marcelo, que está distraído olhando a jovem:
- Que safra, hein!?!
Marcelo vira, ri:
- Grande safra!!!
Antônio senta na mesa e faz sinal para o garçom trazer um chope para ele também.
Antônio: – Cada neném…
Marcelo: – Nem me fale.
Antônio fala olhando para as mulheres do local (câmera subjetiva): Lindas! (em off, diegético)
Marcelo (ironicamente): – E desinibidas.
Antônio (entusiasmado): E digo mais: desinibidas (com mais ênfase) e sem preconceitos!
Marcelo (ironicamente): eu diria informais! (tom normal) Nenhuma chama a gente de senhor.
Antônio ri e balança a cabeça concordando. Fica um pouco pensativo e diz:
- Agora tem uma coisa…
Marcelo: – O quê?
Antônio: – Não sei se isso acontece com você, mas às vezes… (pára e fica pensativo)
Marcelo cutuca o outro e diz (ansiosamente): – O quê? Fala Toninho!
Antônio: – Falta papo. É ou não é?
Marcelo: – Como assim?
Antônio: – Sei lá. Tá certo que o que a gente procura nelas não é estímulo intelectual. Mas de vez em quando a gente gosta de… (gesticula) né mesmo? De bater um papo mais … (gesticula como quem quer dizer uma coisa e não termina, pois o amigo já o entendeu), né?
Marcelo (ironicamente): Nem que seja pra recuperar o fôlego – risos
Antônio bate na mesa: – Exato! E não dá! Essa geração não leu nada.
Marcelo levanta o copo como quem vai fazer um brinde: – Nada! (e dá um gole)
Antônio (ironicamente): – Antigamente ainda liam “O Pequeno Príncipe”.
Marcelo: Liam “O Pequeno Príncipe” demais, pro meu gosto.
Antônio (exaltado e gesticulando): Mas liam! (menos exaltado) Quer dizer (fazendo gesto de mais ou menos) rendia aí uns cinco minutinhos de conversa. Hoje, nem isso.
Nesse momento uma jovem se aproxima da mesa e cumprimenta, com um sorriso, o Antônio e, com um beijo no rosto, o Marcelo, deixando nítido que ela tem maior intimidade com o Marcelo.
Jovem: – E aí, tudo bem!
E vai logo sentando na mesa.
Antônio devolve o sorriso. E Marcelo dá uma olhadinha maliciosa para Antônio e diz (com ironia disfarçada):
- Oi minha flor, melhor agora com sua ilustre presença.
Jovem (meio sem graça): Ãhn… Só você pra melhorar o meu dia! (risinhos)
Antônio: – Então moça, como andam os estudos?
Jovem: – Estão indo bem. Só estou um pouco cansada, final de semestre você já viu, são muitos trabalhos para serem entregues.
Antônio: – Mas você não tá tirando nem um tempinho pra relaxar?
Jovem: – Não, tenho que me dedicar aos estudos primeiro, depois, nas férias, eu descanso.
Marcelo: (entusiasmado e jogando um xaveco) – Nossa! Que mulher dedicada! Posso até dizer exemplar! Mas não tem nem um tempinho pra ir ao cinema?
Antônio: – Falando em cinema, vocês viram o filme que vai estrear?
Marcelo faz uma cara de quem não sabe
Jovem: – Qual?
Antônio: – “Jogo de cena”.
Jovem (faz uma expressão de quem já sabe sobre o filme): – Ah, sim! Eu li sobre esse filme.
Marcelo: – É, eu também ouvi falar. Dizem que esse filme mostra a alma do povo brasileiro, aquela que ninguém vê.
Antônio (balança a cabeça concordando): – O diretor mescla, e às vezes não diferencia, mulheres reais (faz com as mãos os gestos de aspas quando fala “reais”) e atrizes.
Jovem (com uma expressão de quem está muito entendida sobre o assunto): Pois é, esse documentário (faz uma expressão de quem sabe mais do que eles sobre o assunto na hora que ela fala “documentário”, já que o filme se encaixa no gênero de documentário) é uma metáfora muito forte do que está acontecendo no Brasil. Quando um senador nega todas as evidências do que fez. Quando o presidente diz que nada sabia e nada saberá, onde está a verdade? Onde está a mentira? Onde está o ator? Onde está a personagem? As coisas que acontecem no Brasil estão surreais.
Marcelo e Antônio se olham boquiabertos, como se estivessem espantados com a fala da jovem.
Marcelo (espantado com a fala): – É verdade. De uma forma irreal.
Antônio (mudando de assunto): – Surreal é a chance do terceiro mandato presidencial!
Marcelo (tentando tirar a cara de espanto): – É mesmo. (com cara de desprezo) Quem diria, né!? O Lula que se diz o presidente que veio do povão e está no poder pra representar a sua classe, querendo armar uma dessas.
Antônio (balança a cabeça, concordando meio injuriado com a situação do país)
Jovem (cheia de si): – É, costuma-se nomear o governo de Lula como sendo o Governo do povo. Mas na verdade ele é uma mistura de autoritarismo lenista, que cruzou com o germe do sindicalismo oportunista e com o populismo pós-getulista.
Antônio e Marcelo se olham ainda mais boquiabertos
Jovem (com ar soberano, como se estivesse discursando para uma multidão): – É como eu sempre repito: O Estado corrompe os homens. Ele mente friamente: “Eu, o Estado, sou o povo”. Isso é uma mentira! O Homem só começa a existir quando termina o Estado.
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