Marcelo e Antônio balançam a cabeça
Antônio diz (com um meio sorisso): – Uau! Temos uma filósofa!
Marcelo diz (meio irônico) e erguendo as mãos na direção da jovem: – Meu Deus!!! Ela realmente é exemplar.
Antônio: – Como diz dona Zefa, mudando de pau pra cavaco, vocês viram o caso absurdo da adolescente que ficou presa junto com vários homens?
Marcelo (indignado): – Abominável!!! O pior é que a governadora disse que não sabia de nada, pra variar.
Antônio (ainda mais indignado): – E o delegado, que disse que ela era débil mental!! (pergunta, mas já tendo a sua idéia formulada) O que foi que ele quis dizer com isso!?!
Jovem (pegando no braço de Antônio, como se o consolasse): Ah, meu amigo, essa resposta só Freud explica!
Jovem (mudando a expressão para mais alegre): Bom gente, deixa eu ir que já tá na minha hora! (Levanta e vai jogando beijinhos no ar)
Jovem: Tchau pessoas.
Antônio e Marcelo acenam e dizem Tchau sérios.
Marcelo olha para Antônio e ri
Antônio ri de volta e diz: Você não tem jeito.
Marcelo aponta pra onde a jovem saiu e diz: – Mas tá vendo, vê se isso precisa de conteúdo.
Marcelo faz o formato do corpo feminino com as mãos: – Ela já tem conteúdo de sobra!
Os dois riem.
Antônio (com riso de decepção): – É, não tem jeito mesmo! Elas acham que ser inteligente é falar de Nietzsche.
Marcelo ri e diz: Que entender de psicologia é citar Freud.
Antônio (pouco exaltado): Pior, falar de política é repetir discurso de Arnaldo Jabor.
Marcelo (rindo): E você esquenta com isso!!!
Os dois riem, ficam em silêncio, tomam mais um gole de chope e se olham como se pudessem ler os pensamentos um do outro e continuam tomando o chope.
Marcelo: Mas isso tem seu lado bom.
Antônio: Bom?
Marcelo: É… (pensando na resposta)
Ao fundo começa a tocar uma música de Vinícius de Moraes.
Antônio (Reconhece a música e olha para trás e aponta pra cima: – Oh!
Marcelo (completa o raciocínio, estalando os dedos, como quem teve uma grande sacada): – Bom, não. F-O-R-M-I-D-Á-V-E-L!!!
Antônio (sem entender): Como, formidável? (irônico) Não era só bom?
Marcelo (ri): Ah, você que não consegue enxergar!
Antônio: Enxergar o quê?
Marcelo (meio desapontado): Ah, você ainda não entendeu!
Antônio (sem entender e meio irritado): Entender o quê, rapaz!?
Marcelo (irônico e entusiasmado): Meu querido!!! Elas não conhecem Vinícius de Moraes!
Antônio (meio irritado): Tá… e o que isso tem a ver?
Marcelo (em tom filosófico e explicativo, quase irônico): Essa (pausa) é a primeira geração brasileira (pausa e riso) em muitos anos (pausa) que passou pela puberdade (quando fala puberdade eles faz gesto de aspas com os dedos) (Falando pausadamente) sem ler Vinícius de Moraes. (Com mais ênfase): Intocada por Vinícius de Moraes!!! (com ainda mais ênfase e com tom irônico e gesticulando): Eu diria Virgem de Vinícius de Moraes!
Antônio dá um riso debochado e diz: Sim, mas… (esperando que o outro complete o raciocínio)
Marcelo (cutuca o outro): – Pô, Toninho! Lembra antigamente, quando a gente começava um verso de Vinícius pruma menininha? (Cutuca o outro novamente) O que acontecia?
Antônio (responde seco): Ela terminava.
Marcelo (estala o dedo): Isso. Ela sabia de cor.
Antônio (como quem compreende o raciocínio): E isso ajudava!
Marcelo: Então, aproximava vocês. (ironicamente): Você mostrava que era um cara sensível e ela se convencia de que vocês eram feitos um pro outro. (mais irônico e gesticulando): E nascia um amor eterno enquanto durasse (risos), mesmo que fosse só uma noite.
Antônio ri e diz: Tá, e hoje?
Marcelo: Hoje, meu caro, você diz uma frase de Vinícius no ouvidinho de uma menininha (meio rindo) e ela pensa que a frase é sua. É a mesma coisa, só que sem o Vinícius. Agora você é o poeta.
Antônio (meio desconfiado): Será?
Marcelo (como se estivesse confidenciando algo): Tem um tempinho que eu to passando algumas frases do Vinícius como se fossem minhas, como que improvisadas na hora. Poemas inteiros até.
Antônio (empolgado): E dá certo?
Marcelo (entusiasmado): O quê? Você não faz idéia! Elas estão acostumados com a conversinha desses meninos da idade delas. É um reducionismo de palavras, uma embolação de interjeições. Acredite: qualquer vocabulário com mais de dezessete palavras deixam elas extasiadas. As que não admiram poesias, pelo menos admiram a prolixidade.
Antônio: Se é que elas sabem o que é prolixidade… Mas eu não tinha pensado nisso não.
Marcelo (instigando): Experimenta!
Antônio: Ãhn, mas e se aparecer uma que conhece o Vinícius? Vai tudo por água abaixo.
Marcelo: Se aparecer uma que conhece Vinícius de Moraes será velha demais pra você (dando tapinhas no braço do amigo). Pensa no seguinte: tudo o que Vinícius escreveu sobre amor..,
Antônio interrompe dizendo: É… Vinícius é que sabia amar.
Marcelo (continuando): Sem contar as letras de músicas. Aquele cara sabia o que era o amor como ninguém.
Antônio: Isso é uma grande verdade.
Marcelo: Eu que o diga…
Antônio dá uma risada sacana
Marcelo: E é tudo inédito, pra elas. Percebeu?
Antônio ri e concorda com o tudo o que ele disse.
Marcelo: Ler o Vinícius, pra refrescar a memória, é uma das últimas coisas que eu faço todas as noites antes de dormir. Se eu tiver desacompanhado, é claro (risos).
Antônio (risos): E qual é a última?
Marcelo: Tomo minha gemada.
Os dois riem.
Marcelo: Um brinde a gemada! (levantando o copo)
Antônio: E a essa geração!
Isso ai é um trabalho pra aula de roteiro, é uma adaptação do Veríssimo, eu, Tatau e Carol viajando nas histórias de buteco…um dia a Tatau vai ser produtora e vai botar isso ai no ar…bem no ar